Pérolas no capim

Publicado: 16 de janeiro de 2018 em vida real
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Fotos: Anamaria Rossi

Tá escutando os passarinhos? Daquele filhote que cisca o mato, trepado na cerca de arame liso, eu só escuto o tic-tic do grão de capim estourando na ponta do seu bico, que bicho é esse? Tão pequenininho, e tão rápido! Não é da família de Papa-Capim que se instalou anos atrás no fícus da varanda, o fícus que eu imaginava eterno, no vaso amarelo, agora morto e sepulto por um inquilino qualquer. Já vai longe, agora, o papa-capinzinho de araque, mas não tão longe quanto o tempo da contemplação, aquele tempo. Ganha altura como um decalque desaparecendo em câmera lenta contra o céu nublado, chego a pensar que é ele quem perfura – tic-tic – o manto de chumbo que oprime a paisagem. Pela fresta se infiltra uma nesga de luz escorregadia e – plim! – as gotas de chuva equilibristas agora são pérolas no capim.

(Entendo num súbito porque voltei, porque volto.)

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Pequenas preciosidades iluminando a escuridão, vaga-lumes aprisionados numa caixa preta produzindo epifanias como janelas para o infinito. Mas também poderia ser o farfalhar da água passando lenta debaixo da ponte, o ruído macio liquidificando as durezas d’alma em pedrinhas miúdas que vão cair logo adiante, sem dor nem piedade, numa cascata sazonal. Estarão pensando nisso os dois rapazes sentados em silêncio ali no barranco?

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O silêncio é o mar do Cerrado. E as flores são seus corais de conchas raras… Uma coleção de conchinhas vivas tão miúdas e silenciosas como as margaridinhas de miolo amarelo e as lilases diluídas no capim. Ou podem ser enormes e ruidosas, conchas espiraladas cheias de profundidades onde se adivinham os oceanos distantes. Como esta flor sem nome, com mais de um palmo de ancho, que pende, obscena, da trepadeira enredada nos galhos tortos. Macho e fêmea, vulva e falo em uma só flor, exposta sem pudor em total carnosidade – carnuda, carnosa, carnívora, que flor é essa? E ainda outras, delicadas, espinhosas, escandalosas, áridas, o esplendor na diversidade, o todo na grandeza ou pequenez.

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No barro molhado vou traçando o caminho com meus pés de pegadas tortas – ou seriam tontas? Pés de algodão, ultrapassados pela pisada firme da moça que vem com fones de ouvido, rápida, rígida, linear. Ela não nota o rapaz na janela, do outro lado da cerca, cantando com a inocência de uma manhã de domingo, I still haven’t found what I’m looking for, braços em cruz, hipnotizado. O que procuramos, ele e eu?

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Às vezes, sem procurar, encontro.

Na volta para casa, peço na padaria seis reais de pão de queijo, por favor, contando as moedas no bolso.

– Seis e vinte e cinco – informa o homem atrás do balcão, pesando o pacotinho.

– Mas eu só tenho seis…

– Então peraí.

Ele tira do bolso, confere e me oferece, reluzente como uma pérola, a moeda de vinte e cinco.

– Pronto!

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Pronto.

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Travessia

Publicado: 13 de agosto de 2017 em ficção, terra de dentro
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TREZE: Holografia

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“Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada… Viver nem não é muito perigoso?”

(João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas)

FINAL

Agarrada ao próprio sol, Ela fixa os olhos nos raios que entram pela extremidade do túnel, cada vez mais intensos. Por um instante a luz estoura contra suas retinas já moldadas à escuridão, explodindo em milhões de pontinhos coloridos que dançam desconexos sobre um mar de brancura. Mas a cegueira não a detém. Caminha mais e mais rápido pela senda adivinhada até que, pouco a pouco, as manchas voltam a compor imagens sólidas na tela de sua retina. E o que ela vê não lhe parece real.

A cada passo ela nota que as paredes do túnel vão se estreitando e se tornando mais úmidas, engendrando estalactites que se movem como ventosas tentando agarrá-la, ela já está quase correndo, sufocada pela angústia de ser devorada pelo túnel, corre, corre, corre, descalça, nua, descabelada, os músculos começam a se contrair, um passo, mais um, e outro, as estalagmites perfuram seus pés, ignora as cãibras nas panturrilhas, suas pernas se convertem em máquinas de correr, ela é toda músculos e ansiedade, braços abertos como uma criança que brinca de voar, corre mais e mais e mais, as mãos estendidas vão medindo a passagem, tocam as paredes de barro, o ar mais rarefeito a cada passada, a umidade gosmenta lambuza sua pele, uns passos mais e suas mãos se encolhem lambendo o barro das paredes, arrastando as folhas secas que o tempo depositou ali, mas peraí, isso não são folhas! e o túnel agora é um escoadouro de fragmentos, retalhos, amores, recortes de jornal, desilusões, poemas em papel de pão, lixo, espinhos, celofanes de bombom, cacos de vidro, algas, um pássaro morto, um lenço manchado de sangue, um punhal, decalques de chiclete, fitinhas do Senhor do Bonfim, páginas de livros, flores secas, cartazes de filmes, cartas amareladas, trechos de músicas, bilhetes de trem, mapas, verbetes, rascunhos, fotos rasgadas, palavras palavras, e o espaço agora é tão estreito que ela corre inclinada para a frente, braços colados ao corpo, joelhos dobrados, ela já não cabe ali, seu corpo se esgueira, não articula os passos, inspira, expira, inssss…piiiii…raaaa… exxxx…piiii… raaaa…, ela está de joelhos e desliza pela galeria, as paredes movediças vão se moldando ao seu corpo, os retalhos da memória se colam à sua pele como as capas de recortes dos cadernos da infância, e quanto mais estreito o funil mais veloz ela desliza, encolhida sobre si mesma, empurrada pelas contrações daquele tubo movediço que a envolve e a expulsa, ela no meio do redemunho, gira, tonteia, delira, atravessada por uma dor lancinante, fisgadas, cãibras, ossos quebrados, ela já não respira… desliza na velocidade da luz… luuuz… luuuuuz… luuuuuuuuuuuz!!! Ela desmaia e não vê mais nada.

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Desperta horas depois, encolhida na relva fresca, lambuzada, tonta e cega, do lado de fora do túnel. Uma brisa suave lambe seu corpo. Ela hesita em abrir os olhos, como se não ver fosse seu último recurso para não despertar. Respira lentamente, sentindo o ar agora liberto entrar e sair de seus pulmões cansados. Tateia o leito de relva com as mãos espalmadas, recolhe uma pedrinha aqui, uma semente ali, adivinha um caminho de saúvas carregando pedaços de folhas, demora-se escutando o vento, e de olhos fechados imagina a cascata que desliza a poucos metros entoando um canto quase místico. Inspirando profundamente o cheiro de terra molhada, leva as mãos aos olhos ainda fechados e, deslizando-as pelos cabelos úmidos, vai abrindo as pálpebras pouco a pouco.

Reconhece uma clareira em meio a uma densa mata ciliar. O dia ainda está nascendo e ela escuta, ao longe, o canto do sabiá laranjeira. Estira os músculos, um a um, espreguiçando-se depois de uma noite longuíssima. Testa os movimentos, punhos, cotovelos, pés, joelhos, levanta-se devagar, ensaia uns passos, sente-se minimamente firme. Examina o próprio corpo, tentando reconhecer-se em seu novo habitat, e percebe que sua pele está recoberta por uma fina camada de recortes, uma segunda pele formada pelos retalhos da caminhada unidos desordenadamente pela gosma uterina. Com as mãos umedecidas na frescura da relva, começa a arrancá-los, um a um, sem dor, sem culpa, sem arrependimentos, dedicando-se durante horas ao ritual de extrair a pele morta e entregá-la ao vento. Novamente nua, nota que os retalhos deixaram marcas em seu corpo, manchas, verrugas, cicatrizes, pequenos portais para o pavilhão da memória. Desliza devagarinho as pontas dos dedos, acariciando sua nova casca, detendo-se em um ou outro sinal, desenhando suavemente os contornos.

Ela gosta do que vê.

O dia está lindo, céu azul, sol de primavera.

Ela tem fome. Sorri.

Cavaleiro de copas

Publicado: 11 de agosto de 2017 em filosofia barata, vida real
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cavaleiro de copas

O amor é uma ideia tão forte e abrasadora que a simples possibilidade de que ele se instale, milagrosamente, em nossa vida já é o princípio do milagre. Uma comichão que às vezes começa na pele, bem na superfície, e vai ganhando terreno, corrompendo a carne, fervendo o sangue, explode em fluidos e cheiros e calores, até o momento em que se instala definitivamente na mente – ou será no coração mesmo? – e nos arrasta atrás dele deixando para trás tudo e todos.

Amor é amor porque é inexplicável. Criamos imagens para representá-lo – o deleite do corpo, o regozijo da alma, a febre, a querência, o olhar demorado e doce, a pele, a pele… E vem junto o medo, o pavor de que esse instante de graça e comunhão com o que há de mais sagrado no universo se extinga no minuto seguinte. Queremos estancar a correnteza do tempo, prolongar o amor, esticar o amor até o fim da existência, viver o eterno gozo do sol que ao mesmo tempo acende e oprime o peito. É o paradoxo máximo da existência, dor e prazer em voltagens estratosféricas, uma fome insaciável quando mais saciado se está, um querer extremado quando tudo se tem, um não poder separar-se do que é o outro e ao mesmo tempo é a gente mesmo, inteiro e partido.

Por amor eu vivo, não mato, não morro. Deixo aos mortos que enterrem seus mortos. Pinto, danço, desenho, cozinho, escrevo poesias no ar para depois soprá-las como às flores das paineiras, espalhando lindezas. Por amor eu vivo e quero viver uma eternidade, correr, cantar, ser criança uma vez mais. Por amor eu renasço e começo tudo de novo.

Holografia

Publicado: 18 de julho de 2017 em ficção, terra de dentro
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DOZE: PS: Eu te amo

Holografia-final

TREZE

Quando os olhos se acostumam à escuridão, qualquer vagalume pode parecer o Grande Sol Brilhando Lá Fora. O vagalume pisca? Ah, é apenas uma nuvem passando diante do Grande Sol. O vagalume se movimenta? São os raios do Grande Sol atravessando as nuvens aqui e ali. O vagalume se apaga? É uma tempestade, nada mais; depois dela – ela passará, todas passam – o Grande Sol voltará a brilhar, pois esta é a sua natureza.

Sim, Ela tinha mania de conversar consigo mesma, como se fosse duas pessoas diferentes, três até. Mas às vezes a Outra Ela assumia outras vozes, outras caras, outros nomes. Chegava a se materializar na sua presença. Agora mesmo ela conversava com uma pequena tela que se projetava à sua frente, interrompendo a visão da saída do túnel.

A tela irradiava uma luz azulada e um tanto irregular, na qual manchas se moviam rapidamente, compondo e decompondo imagens distorcidas. Eram rostos de homens, desconhecidos, mais ou menos jovens, mais ou menos velhos, mais ou menos tristes, super-homens, meninos, palhaços, mágicos, aventureiros, frágeis. Solitários, como ela, procurando a saída.

Os rostos se alternavam sem que ela tivesse muito tempo para percebê-los. Depois de uma sucessão deles, entendeu que se quisesse dar voz e vida a alguma dessas caras precisaria ser rápida.

– Mas para quê dar voz a um rosto que desconheço?

– Veja, garota, você está há muito tempo sozinha neste túnel. Não quer aproveitar a oportunidade de manter um diálogo, ainda que curto, ainda que rápido, ainda que com um desconhecido?

Ela aceitou. Com um toque rápido na tela, congelou um rosto que lhe parecia familiar, e esperou que ele se movesse. O desconhecido sorriu e piscou marotamente.

– Posso entrar?

– Entrar onde? Entrar como?

– No seu túnel. Podemos brincar um pouco.

– Acho que não me lembro de como se brinca…

– Vamos, eu te ajudo a lembrar.

Ela consentiu. E viu como aquele rosto ganhava corpo e se desprendia da tela tal qual uma holografia. Em poucos minutos tinha à sua frente a ilusão de uma presença humana, materializada em feixes de luz que ela podia modelar usando apenas a imaginação.

E assim fez. E deu-lhe nome, passado, presente, ajustou sua altura, o vestiu à sua maneira, desenhou cenários diante dos quais ele se movia, modulou sua voz, compassou suas falas. Eles dançaram, riram, trocaram olhares cúmplices, brincaram juntos de construir futuros. E foi tão doce, e foi tão terno, que mesmo sabendo que ele não passava de um feixe de luz, mesmo sem poder tocá-lo, ela acreditou. E continuou. Porque sentia que algo se desmanchava em seu peito. O Grande Iceberg enfim se derretia e começava a emanar um calorzinho bom, fluindo líquido por todo o seu corpo.

Eu já não me lembrava de como era bom sentir isso! – Ela pensou, mas não disse, com medo de quebrar o encanto. Ainda que, mesmo sem querer, ela se revelasse um pouco mais à medida em que subia a temperatura interna.

Ele, sem ouvir, respondeu. Sorriu e se aproximou, emanando uma luz amarelada e quente. Ofereceu a mão, convidando-a para um passeio. E era tão doce o sorriso, tão aconchegante a luminosidade, que ela, mais uma vez, se entregou à brincadeira. Estendeu a mão – sua mão real – para tocá-lo.

Mas, porém, contudo, todavia… tocá-lo, com sua mão real, era tudo o que ela não podia fazer. No instante em que seus dedos tocaram a imagem – gelada, apesar da luz quente… PUF! O homem se apagou instantaneamente, holografia que era.

Perplexa, desnorteada, órfã da ilusão que havia criado, ela mergulhou de novo na escuridão, se debatendo contra as paredes do túnel e sem enxergar a saída que ainda há pouco estava ali. Chutou as pedras frias, se arranhou nos espinhos secos, esmurrou o ar pesado, gritou, chorou, espumou de raiva.

Como posso ter sido tão tola? Again and again and again… Até quando vou agir como uma menina de esperanças virgens, acreditando que um vagalume é o Grande Sol? Não é! Não é, não é e não é!!! Maldito Sol, malditos vagalumes, maldito túnel que não tem fim!!!

 Adormeceu brigando consigo mesma, encostada a uma parede úmida. Quando acordou, o sangue dos arranhões já estava seco, apenas o coração lhe doía, uma dor quente e viscosa. Levou a mão ao peito e por pouco não se queimou: bem ali, no centro do seu corpo, exatamente no encontro da linha que vai de um seio ao outro com aquela que une a cabeça ao sexo, ardia uma bola de fogo. Sim, era ele, O Grande Sol Brilhando Aqui Dentro.

Ela sorriu e o agarrou com força. Que me queime as mãos, que me importa? De que me servem as mãos sem O Grande Sol?

 Segurando firme o seu coração em brasa, levantou-se e procurou a saída. Ela estava lá, onde sempre esteve.

Vamos, que já é hora!

 continua…

Jardim de mulheres

Publicado: 29 de maio de 2017 em vida real
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O sino da tarde acaba de tocar e me devolver à realidade. Sessenta e seis badaladas em vinte e dois lotes de três: tóooommmm tom tom……. tóooommmm tom tom……. a primeira bem longa e aberta, e depois duas outras, secas e rápidas. Um aviso e duas advertências, um chamado e dois lembretes.

Desde que me instalei neste apartamento numa esquina chanfrada do Poble Sec, terceira planta na escritura mas quarto andar na vida real, tento decifrar os padrões que definem as sequências de badaladas que invadem meu campo auditivo diariamente às 12h e às 18h45 – aos domingos elas começam às 11h. Tudo o que sei depois de quase dois anos é que o enorme e estridente sino não é tocado por mãos humanas, mas por um badalo movido por algum botão que alguém aperta, sabe Deus onde, sem sequer subir as escadas que levam ao quarto andar.

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Sim, o sino se encontra exatamente na altura da minha janela escancarada para a rua, em linha diagonal com a pequena igreja na esquina em frente. Seu som entra como uma bateria estridente em meus pensamentos que quase sempre vagueiam pelo éter de uma existência cada vez mais cheia de perguntas. Às vezes compõe uma trilha sonora respeitável, em outros momentos simplesmente tapo os ouvidos – too much for me.

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A arquitetura do edifício pequeno, pintado de bege, me remete a uma antiga mesquita, como tantas outras instaladas nos bairros populares de uma Barcelona outrora ocupada pelos mouros e convertidas em templos cristãos depois do reinado de Isabel, a Católica. Lá dentro o ar é morno, esverdeado e triste, mas nas tardes de sábado o ambiente ganha as cores e flores dos casamentos que movimentam a vizinhança com o estardalhaço dos momentos felizes.

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Sempre imaginei que a igrejinha levasse o nome da Virgem dos Remédios, padroeira da rua, mas não: descobri ao entrar que, por alguma razão misteriosa, é dedicada à Virgem de Lourdes. Não sei qual das duas – sou analfabeta em santos e rezas -, mas creio que alguma delas me cuida em silêncio. Ambas, talvez.

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Aqui sou feliz de um jeito calmo, como se sentar à janela escancarada para o templo e examinar sem pressa as torres e os telhados recortados contra o céu azul de Barcelona me esvaziasse das tormentas que me trouxeram até aqui.

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Estou segura de que as Virgens caminham comigo pelos jardins do Montjuic quando decido subir os infinitos degraus da montanha que descansa atrás de mim e me acolhe em uma franja lateral. Como no passeio desta manhã pelo amplo jardim onde mulheres talhadas em mármore branco saem nuas do gramado forrado de margaridinhas e outras miudezas brancas, azuis e amarelas – filhas da terra, rebentos da Primavera. À primeira vista seus corpos parecem de pedra, mas um olhar atento pode revelá-las dissolvidas na exuberância da natureza ao redor, transpirando a mesma maciez da penugem do gramado, vibrando como a minha pele de mármore branco pontilhado de marrom que se confunde agora com a relva.

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As margaridinhas me fazem cócegas… Sentirão o mesmo as Vênus e Madonas que emergem, serenas e eternas, do tapete primaveril? Aqui a Beleza surge do coração da fonte, distraída; ali, contempla a cascata, sentada sobre os calcanhares; mais adiante, ela apenas espera, sem nada desejar; em outra fonte, brinca com o querubim que a observa encantado, e a quem lança um olhar malicioso. A água passeia levantando espuma, içando vapores. O sol estoura sobre nossas cabeças e nos unifica – sou eu a Vênus de pedra que se espreguiça no gramado, prescindindo de pudores?

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Hora de voltar para casa. Com cuidado me levanto e busco caminho entre as flores, mas são tantas e tão miúdas que quase preciso flutuar. Volto ao apartamento de janelas amplas e luz escancarada com a leveza de quem abriu caminho entre uma nuvem de margaridinhas. Flutuo.

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